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As encruzilhadas da vida e a magia da atracção

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.11.10

 

Duas surpresas cinematográficas: As Confissões de Schmidt e A Maldição do Escorpião Jade. Dois filmes no mesmo dia, num daqueles canais-que-passam-filmes. Que resisti por diversas vezes a ver, vá-se lá saber porquê. Bem, As Confissões de Schmidt não me atraiu quando saiu o trailer publicitário. A ideia de um homem zangado e amargurado, numa atmosfera cinzenta, não me entusiasmou na altura. A Maldição do Escorpião Jade pareceu-me muito rebuscado, a começar pelo título.

 

Mal sabia eu que As Confissões de Schmidt era muito mais do que alguns dias difíceis de uma vida solitária. É a aceitação da realidade após a revolta e a tentativa de dar mesmo a volta ao filme da vida. É a visita aos locais-chave de um percurso e colocar tudo em perspectiva. É respeitar os outros mesmo que não se queira partilhar a vida com eles. É delimitar essas fronteiras para poder conviver. É render-se, não controlar a vontade de outro, apenas manter intacto o seu próprio espaço e lista de prioridades pessoais. É partilhar com quem se quer finalmente partilhar alguma coisa de verdadeiro, real, palpável, tocar uma outra vida de forma leve e benéfica. É isso afinal que ficará de Schmidt, a sua influência na vida de um garotinho africano.

A parte mais comovente do filme está nesse monólogo de Schmidt ao regressar a casa, depois dessa aventura e desse percurso, e na leitura da carta de África e no desenho de Ndugo. Mas a minha parte preferida é, sem dúvida, o discurso no casamento da filha. É com esforço e num terrível conflito interno que Schmidt decide pegar, no discurso, pela parte luminosa dos anfitriões, o noivo e os pais do noivo. Depois de ter verificado nada poder fazer para impedir o erro do casamento, resta-lhe respeitar a filha e minimizar os danos futuros. É preciso discernimento e coragem, não acham?

 

E mal sabia eu que esta Maldição do Escorpião Jade guardava lines fabulosas em ritmo frenético e numa atmosfera muito cinematográfica à anos 40, onde as mulheres eram criaturas belas e misteriosas e respondiam à letra às tiradas masculinas! Woody Allen veste muito bem o papel de um detective de uma companhia de seguros e até a, por vezes irritante, Helen Hunt, vai maravilhosamente bem no papel de colega competitiva.

A história está muito bem engendrada, digamos que já tinha saudades destes guiões criativos, mas o que sobressai são mesmo os diálogos inteligentes, cheios de ritmo, de ironia e sarcasmo, os ingredientes da atracção. A magia que pensávamos estar na hipnose, estava afinal na atracção que os dois colegas-detectives não querem assumir. Estes ingredientes vimo-los em filmes dos anos 40, o estilo sexy e misterioso, os segredos, as supostas rivalidades, as discussões, a fúria, o enganador desprezo, para logo depois caírem nos braços um do outro.

O cinema era assim, não imitava a vida real. Daí esta line fabulosa de Woody antes de beijar a Helen: Antes de acordarmos para a vida real... E têm direito a fogo-de-artifício e tudo! Woody Allen gosta muito de jogar com o sonho e a vida real nos filmes, é um jogo duplo que funciona muito bem.

O momento mais fabuloso será mesmo no final. Woody pensa que a Helen ainda está sob o efeito da hipnose, mas joga a última cartada. Quando se apercebe que ela também já tinha sido desprogramada, fica sem palavras, pela primeira vez no filme todo, fica sem palavras. Esse momento é fabuloso.

 

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publicado às 17:44

Qualquer dia a infância e a adolescência já só existem no cinema

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 10.11.10

A infância e a adolescência, fases da vida humana definidas assim de forma bastante recente, estarão qualquer dia apenas identificadas e disponíveis num museu de cinema. O ciclo "infância no cinema" ou o ciclo "adolescência no cinema", por exemplo. Mas deixarão de ser parte da vida real, quotidiana.

Dito de outro modo, há quem tenha por missão destruir a infância e a adolescência, tendo por destinatários do seu lixo cultural e doutrinário, as crianças e os adolescentes. Já não bastavam os programas e telenovelas indescritíveis no seu estilo soft porno aliado à brutalidade boçal e à violência verbal e física, também se passou à educação programática e sistemática de conteúdos primários e mecânicos, na linha dos autores perversos e, na maior parte dos casos, desviantes. Se é verdade que reprimir o desejo, que vem da mesma fonte do ânimo e do entusiasmo, pode marcar, murchar, e mesmo adoecer, passar para a imposição do prazer imediato como medida de todas as coisas, base tão superficial e narcísica, não fará menores estragos.

 

E isto para vos contar que vi O Laço Branco e revi o Conta comigo.

O Laço Branco fala de violência verbal, física, do silêncio, da ausência de afecto, de negligência, de egoísmo e brutalidade, de equívocos morais. Aqui a infância é uma caminhada dura e em permanente ansiedade e angústia. O resultado é a perpetuação da violência. Estas crianças tornam-se, elas próprias, opressores de vítimas mais vulneráveis.

O Conta Comigo é uma maravilhosa descrição da adolescência: receios, inseguranças, esperanças, descobertas, mudanças, ensaio da autonomia. A atmosfera deste Rob Reiner-Stephen King é única, transporta-nos à nossa própria adolescência, à sensação da aventura de todos os inícios.

 

É aqui que eu queria chegar. Só quem viveu uma infância e uma adolescência minimamente felizes e equilibradas pode aceitar e respeitar a infância e a adolescência como direitos fundamentais. Devemos defender as nossas crianças e adolescentes de quem não percebe nada de nada de infância nem de adolescência mas que, sob uma capa científica, quer impor o seu "menu de fantasias sexuais" primário e medíocre, onde não cabe a descoberta de cada um, a surpresa de cada um, os ensaios de cada um, a imaginação de cada um.

 

Aqui não há lugar para preconceitos ou moralismos, há o certo e o errado, e as fronteiras são claras: é certo se permite que cada um se respeite a si próprio e aos outros, é errado se promove a violência sobre si e sobre outros; é certo se respeita a individualidade de cada um, é errado se pretende formatar e programar à sua medida; é certo se se fundamenta na ciência que inclui estudos sérios, dados fiáveis e uma ética, é errado se se baseia em estudos da "ciência relativista" que se vê nos programas televisivos para as massas.

 

O Laço Branco deixou-me uma impressão opressiva. Ali a infância não existe, é um lugar perigoso e doente. É também a escuridão, a prisão de que não se pode fugir, o poder e a violência, a lógica perpetuada opressor-vítima.

O Conta Comigo é a adolescência, a esperança no imponderável, a ténue esperança no terrível acaso, a incrível capacidade de afecto, a amizade, sobrevivência de adolescentes solitários, a possibilidade de construir um futuro risonho com um pouco de sorte e de inteligência.

 

Nestes dois filmes está tudo: num, como evitar perpetuar a lógica da violência, no outro tudo o que há a lembrar sobre a adolescência.

 

 

 

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publicado às 14:32


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